mudei-me.
agora entretenho-me com um pinguim inquieto. outra ideia/experiência.
o tecto já não é mais tecto.
"hey, do you feel the rhythm?"

não posso parar. nem perder a passada constante, o pulsar das minhas veias e o nascer do sol. o vento que me trespasse e a noite que me pinte porque eu sou tudo, e chego ao topo da montanha. procuro-me mas antes já me encontro e continuo ainda com mais sentido. deixem-me ser, quero viver com vontade de erguer e sede de crescer - longe, longe das nuvens e de todos vocês. obrigado, mas não obrigado. preciso de montanhas mais altas.

"the rhythm you feel when you're hearin' a beat."
está um vidro partido no meu caminho para casa. pouco maior que a palma de uma mão, foi esquecido entre a calçada e o alcatrão de uma rua. reparei no vidro num dia pouco nublado, quando o pisei, e ao olhar para baixo a estrada espelhou o meu reflexo: descontracção, energia, um 'sim' gritante desenhado na cara. nem por segundos me deixei a observá-lo. porque quem sorri não contempla, e muto menos devaneia. apenas sente.

hoje, noite quente de início de verão, o vidro continua lá: mais basso, mais recatado no canto daquela estrada. a camada de pó não deixa olhar-me mais uma vez, a cara e o céu por cima. talvez seja melhor assim - é que não queria demorar a chegar a casa.




cliché que nem intelectual, os episódios da vida correm mais rápida e nitidamente no reflexo sujo da janela do autocarro em que me sento todos os dias. observam-se corpos cicatrizados ou com feridas abertas, de criança ao colo e sotaque estrangeiro. conhecem-se, falam-se, partilham histórias duras e por vezes choram. mas são todos tão belos e lutadores, subindo o degrau e viajando no mesmo trajecto dias sem fim. porque eu observo todas as caras: as que fogem ao meu olhar e as que se encontram com ele. e por breves momentos, sintonizo-me com todas aquelas vidas, sem no entanto, nada saber delas.

fotografia por dida
sábio ignorante, sonho um dia ser como tu.
(curioso: pareces tão pouco aos olhos de quem não tem nada)
existem lugares que da paisagem comum se arranca momentos únicos. onde se pisa utopia, correndo sobre ela saboreando o vento já gasto. e onde o céu tem a mesma cor mas tons diferentes, tal como os meus olhos.

da terra seca e das pedras quentes: saudade.
agosto 08
por ne te cache pas, o ponto da sofia e o tecto é branco

« Morri. A sala estava vazia e o mundo parado. Não pensei, não pensei no barulho lá fora nem no silêncio cá dentro, não pensei na luz que passava pelas janelas e me aquecia, não pensei em ti.

Por instantes esqueci todos os projectos, todas as crenças, todos os nomes. Já não sentia vontade de correr, de rir, de sentir. A energia esgotou-se. Foi dar uma volta, arejar. Fugiu para ver o mar uma última vez. Não tentei impedi-la, não tinha esse direito. Não volta e talvez eu já não esteja preparado para recebê-la. Tornou-se típico em mim. A porta fechou-se e o sorriso raramente se abre.

E tu és a chave que eu não encontro. Perdi-te numa sombra, procurei por entre os dedos mas estes depressa se esconderam. O futuro é negro e eu perdi a coragem. Desculpa, mas tenho de ir. Perdeste a simplicidade que eu amava. O caminho que percorríamos tornou-se demasiado escorregadio. Já não há braços que me guiem nem beijos que me calem – acabou.


Acabou – já não há braços que me guiem nem beijos que me calem. O caminho que percorríamos tornou-se demasiado escorregadio. Perdeste a simplicidade que eu amava. Desculpa, mas tenho de ir. O futuro é negro e eu perdi a coragem. Perdi-a numa sombra, procurei por entre os dedos mas estes depressa se esconderam.

E tu és a chave que eu não encontro. A porta fechou-se e o sorriso raramente se abre. Tornou-se típico em mim. Ela não volta e talvez eu já não esteja preparado para recebê-la. Fugiu para ver o mar uma última vez. Não tentei impedi-la, não tinha esse direito. Foi dar uma volta, arejar. A energia esgotou-se. Já não sentia vontade de correr, de rir, de sentir.

Por instantes esqueci todos os projectos, todas as crenças, todos os nomes. Não pensei, não pensei no barulho lá fora nem no silêncio cá dentro, não pensei na luz que passava pelas janelas e me aquecia, não pensei em ti. A sala estava vazia e o mundo parado. Morri. »

quero erros, muitos erros. bofetadas da vida para aprender depressa. quero falhas, tantas falhas. e a felicidade que chega no dia em que deixarão de ser falhas. quero defeitos, os meus, os teus, os nossos defeitos. e amar esses defeitos. sobretudo, quero uma vida sem arrependimentos. indomável, incansável, instável, inalcançável quanto baste. selvagem. quero intensidade, paz e felicidade, ser polémico e mostrar o rabo à humanidade. parar de procurar soluções. em vez disso, parar de ver problemas.

vou misturar ideias, as minhas ideias, e condensar-me num só mote. vou pecar e blasfemar. vou também enfrentar, mas nunca vou parar. medo? o pior erro, mas quero erros, muitos erros, por isso vou ter medo. de barreiras e muros e paredes e grades e correntes? não, que tudo isso é feito de pensamentos. vou antes temer as pedras, os mares e os rios que não se movem por mim nem por tão pouco. vou percorrer o mundo, conhecê-lo, marcá-lo, torná-lo mais pequeno. cansar-me-ei no dia em que daqui sair.

vagabundo em sonhos e inconsciências, serei errante quando partir para não voltar. serei livre. mas que vida essa sem prisão? não estarei eu condenado à emoção e ao sentimento? afinal, são beijos e abraços o meu alimento. não, condenada é a alma esfomeada, mas essa já vagueia. o que está preso é o corpo, por isso quem lhe paga a fiança? a esperança e sempre a esperança.

torres vedras, carnaval - cinco da madrugada

e depois da cor, da luz, da vida... nada, uma estrada vazia.

todos os dias são réplicas.

andas por terrenos acidentados à procura do objectivo do propósito da razão do fundo da questão da certeza da maneira do sentido que tem andar. o que é certo é que andas. e não páras para pensar. (que) não precisas de dar um passo. pensar dói.

e todos os dias são réplicas.



resoluções: nem sequer as pensei. talvez pense nelas todos os dias, numa hora solta e por serem soltas não as compactei e dividi em doze. tradições. sentia as passas na mão, a sujá-la - deixando-a doce e a colar. no primeiro minuto do ano eu estava sozinho numa cozinha e deitava os meus supostos desejos - não, resoluções - para um lava-loiça bloqueado por pratos secos e manchados. não engoli nem uma. nem sequer tentei. tradições: e no primeiro minuto do ano decidi quebrá-las.
silêncio.

a frase, a pergunta, o grito que não sai do ponto de partida. frustra, porque assim dói menos. o silêncio pode ser um sorriso enigmático, um olhar desesperante ou apenas indiferente. é porquês sem coragem, serás sussurrados, talvezes pouco destemidos. é de ouro este silêncio, mas há certas palavras que escondem minas. difícil é descobri-las.

(e se há fuga para o silêncio é abrir a boca e sair o contrário do que se quer dizer)
hoje deixa de haver sentido em ter um quadro de valores, uma consciência, alguns motes, princípios de vida e padrões mínimos de comportamento quando já ninguém os aparenta ter e acabamos por não conseguir integrar a multidão, nem encontrar um lugar fora dela.
luta pelo que acreditas, por causas, para fins maiores, pela diferença, por todos, para o mundo, pela paz, por mim, para ti, pela liberdade, por aqueles que não podem lutar, para os sorrisos, pela justiça, por movimentos, para fazer história, pelas cores, por gerações, para que lutar faça sentido. luta.
se não vemos, devíamos ter visto.  se não conhecemos, devíamos ter conhecido. se não sentimos, devíamos ter sentido. são pontos. pontos de vista, opinião, ideias, fixações, dogmas pessoais que teimam e estremecem. concebem-se as verdades, baseadas em mentiras, transformam-se em regras, mudam para leis e...

é assim. evitável. irreversível. estrada de um sentido que caminhamos passo a passo sem saber para onde vamos. parar? no fim, e esse é ainda desconhecido.
o tempo passa. 

o tempo é isto. o tempo não existe. o tempo é camada sobre camada, sobrepostas em diferentes realidades vividas simultaneamente. o tempo está. o tempo é velocidade. o tempo tem cem cores e um pincel. o tempo voa nos olhos de quem não tem asas. o tempo traz falta de tempo. o tempo é um número. o tempo muda quando tudo permanece igual. o tempo nunca são horas, são vidas. o tempo já foi. o tempo é passado. o tempo é futuro. o tempo é um dia. o tempo é amanhã. o tempo é conjunto de letras, de palavras. o tempo é sentimento. o tempo é saudade. o tempo é esperança. o tempo é amor. o tempo é oportunidade. 

e os segundos tornam-se minutos, que se tornam horas, que se tornam dias, que se tornam meses mas,

o tempo fica.

é um ciclo.
pode ser do que mais valioso temos, mais tarde irá ser inevitavelmente substituído. 


a vida é tão relativa.
porque sem erros perdemos metade do sentido. porque sem defeitos não somos nós. porque sem cair nunca nos levantamos. porque sem muros nem paredes nunca paramos de correr. porque sem acima não saímos debaixo. 

agradecemos às fraquezas, aos medos, a todo o mal que nos caracteriza, porque sem ele não seriamos mais e melhor, a cada dia que passa.